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Como Criadores e Tecnologia Redefinem Eleições no Brasil
Por Redação Sonic Atlas · 25/10/2026
No cenário político contemporâneo brasileiro, a forma como campanhas eleitorais são concebidas e executadas tem passado por uma revolução digital. Longe dos comícios tradicionais e da propaganda televisiva como únicos pilares, a arena eleitoral migrou significativamente para o ambiente online. Plataformas como TikTok, Instagram e YouTube se tornaram campos de batalha por narrativas, engajamento e, fundamentalmente, votos. A pergunta central que nos guia é: Como criadores de conteúdo e tecnologias digitais estão redefinindo as campanhas eleitorais no Brasil e qual o impacto disso na formação da opinião pública?
Este artigo propõe-se a analisar a influência crescente de criadores de conteúdo e plataformas digitais nas estratégias eleitorais brasileiras, explorando seus impactos na comunicação política e na percepção dos eleitores. Da disseminação de memes à complexidade dos algoritmos, a era digital não apenas mudou as ferramentas, mas também alterou a dinâmica do diálogo político e a própria construção da opinião pública.
Criadores de Conteúdo e as Novas Táticas Digitais
A emergência de criadores de conteúdo como peças-chave nas campanhas eleitorais é uma das mudanças mais notáveis. Eles utilizam uma variedade de formatos digitais para alcançar e engajar o eleitorado, especialmente os mais jovens. Vídeos curtos e dinâmicos, memes com mensagens políticas embutidas, lives interativas e o uso estratégico de influenciadores digitais tornaram-se táticas comuns. A pesquisadora Nina Rolin observa que “tudo é política” no contexto atual, e destaca o papel crucial dos influenciadores nas campanhas eleitorais brasileiras

Essa abordagem permite uma comunicação mais direta e, muitas vezes, menos formal, o que pode ressoar melhor com parcelas da população que se sentem distantes da política tradicional. O engajamento do eleitorado jovem é um dos maiores alvos, e os criadores de conteúdo têm se mostrado eficazes em simplificar mensagens complexas e levá-las a nichos específicos. Um exemplo da importância desse alcance foi a iniciativa do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) de reunir influenciadores digitais para combater a desinformação. O criador de conteúdo Thiago Alcantara (o Break) destacou a urgência de usar uma linguagem simples para falar com os jovens e a importância de levar a mensagem às favelas e periferias brasileiras por meio das redes sociais. De modo similar, Maria Helena (do perfil Maria Helena e Tarcísio) enfatizou a responsabilidade de dialogar com o eleitorado, mostrando a amplitude do trabalho desses novos atores políticos.
Esses criadores não apenas disseminam mensagens, mas também constroem narrativas, moldando percepções e mobilizando bases de apoio. A capacidade de gerar identificação e comunidade em torno de ideias políticas é uma força poderosa, como exemplificado pela transformação da comunicação digital de movimentos como o bolsonarismo, que conseguiu associar símbolos nacionais a seu campo político – embora, como aponta Nina Rolin, esses símbolos já não pertençam a um único grupo.
Desafios da Transparência: Algoritmos, Segmentação e Desinformação
Se por um lado a tecnologia digital oferece oportunidades sem precedentes para o engajamento, por outro, ela apresenta desafios significativos para a transparência e a equidade do processo eleitoral. Os algoritmos das plataformas desempenham um papel central nisso. Ao recomendarem conteúdo com base no histórico de interações dos usuários, eles podem criar bolhas informativas, ou “filtros-bolha”, onde os usuários são expostos predominantemente a informações que confirmam suas visões existentes, reforçando preconceitos e preferências.

Um estudo sobre recomendações no TikTok, por exemplo, identificou que conteúdos de perfis políticos recebiam recomendações, como 5 para Flávio Bolsonaro e 2 para Lula, embora o experimento não permitisse generalizar o comportamento do algoritmo [3]. A segmentação de público, embora seja uma ferramenta de marketing poderosa, permite que campanhas direcionem mensagens específicas a grupos demográficos ou ideológicos, o que pode levar à veiculação de informações diferentes, e até conflitantes, para eleitores distintos. A pesquisa Datafolha revelou que 57% dos brasileiros haviam visto conteúdo sobre as eleições nas redes sociais, sublinhando a amplitude do alcance digital [3].
A desinformação, ou “fake news”, é talvez o desafio mais premente. A velocidade com que conteúdos falsos ou enganosos se espalham nas redes sociais pode distorcer o debate público, manipular percepções e até influenciar o resultado das urnas. O impulsionamento de conteúdo – pagar para aumentar a visibilidade de uma postagem – é permitido e regulado, exigindo identificação clara e contratação apenas por candidatos, partidos ou coligações, mas, mesmo assim, levanta questões sobre o poder do dinheiro na visibilidade das mensagens [4]. A Justiça Eleitoral tem atuado na tentativa de mitigar esses impactos, buscando parcerias com influenciadores para combater a desinformação [2].
A intersecção entre criadores de conteúdo e algoritmos digitais molda não apenas como a informação chega aos eleitores, mas também como a própria política é percebida e debatida.
Engajamento Digital e a Formação da Opinião Pública Polarizada
A relação entre o engajamento digital e a formação da opinião pública é complexa e intrinsecamente ligada à polarização política. As redes sociais, com seus algoritmos e o incentivo à interação, tendem a acentuar as divisões existentes na sociedade. Conteúdos que geram forte reação emocional – seja positiva ou negativa – são frequentemente priorizados pelos algoritmos, o que pode favorecer narrativas extremas em detrimento do diálogo construtivo. Isso leva à criação de “bolhas informativas”, onde os indivíduos são expostos a informações que reforçam suas próprias visões, dificultando o contato com perspectivas divergentes [6].

A polarização política no Brasil, como observado em diversas análises, tem sido significativamente influenciada pelas mídias sociais [5], com os feeds de notícias atuando como catalisadores para o acirramento das divergências. A constante exposição a conteúdos que validam as próprias visões pode levar a uma radicalização das opiniões, tornando o consenso mais difícil de ser alcançado. Além disso, a facilidade de criar e consumir conteúdo sem filtros ou verificações aprofundadas contribui para um ambiente onde a verdade é disputada e a confiança nas instituições tradicionais, incluindo a imprensa, pode ser erodida.
A disseminação de mensagens políticas por criadores de conteúdo, embora possa promover o engajamento, também contribui para essa dinâmica. Eles atuam como vozes influentes dentro de suas bolhas, reforçando identidades políticas e mobilizando seguidores, mas também podem, inadvertidamente ou intencionalmente, amplificar a polarização ao focar em questões divisivas e criticar o “outro lado” de forma contundente. Essa dinâmica redefine não só a forma como as campanhas operam, mas também como a opinião pública é formada, permeada por ecos e amplificações digitais.
Os criadores de conteúdo e as tecnologias digitais estão, sem dúvida, redefinindo as campanhas eleitorais no Brasil de maneira profunda e multifacetada. Eles democratizaram o acesso à informação política e ampliaram as possibilidades de engajamento, especialmente entre o eleitorado jovem, por meio de formatos mais acessíveis e pessoais. A agilidade na disseminação de mensagens e a capacidade de construir narrativas envolventes são os principais legados dessa transformação.
No entanto, essa nova era também trouxe consigo desafios significativos. A disseminação da desinformação, a influência dos algoritmos na formação de bolhas informativas e o acirramento da polarização política representam ameaças à integridade e à equidade do processo eleitoral e à própria saúde do debate público. O impacto na formação da opinião pública é notório: ela se torna mais fragmentada, muitas vezes reativa e suscetível a narrativas que ressoam dentro de nichos específicos, em vez de se formar a partir de um consenso ou de um debate amplo e plural.
Para o futuro, é imperativo que o Brasil continue a buscar um equilíbrio entre a inovação digital e a necessidade de transparência, responsabilidade e combate à desinformação. Isso pode envolver o fortalecimento da educação midiática dos cidadãos, aprimoramento das regulamentações eleitorais para o ambiente digital e a promoção de um diálogo mais construtivo entre as plataformas, criadores de conteúdo e a Justiça Eleitoral. A próxima etapa para o leitor e a sociedade é refletir criticamente sobre o consumo de informações online e exigir cada vez mais ética e transparência no cenário político digital.
Referências
- 'Tudo é política': pesquisadora analisa o papel dos influenciadores na campanha eleitoral brasileira - RFI - TSE reúne influenciadores digitais em estratégia contra desinformação nas redes — Tribunal Superior Eleitoral - Limite à recomendação nas redes desafia estratégia digital de Lula; entenda - Eleições: o que é permitido e o que é proibido nas redes sociais — Senado Notícias - POLARIZAÇÃO POLÍTICA NO BRASIL E A INFLUÊNCIA (DIRETA) DAS MÍDIAS SOCIAIS | Revista DCS - polarização política digital: a contribuição das redes ...
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Etiquetas: eleiçao
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